No conto “A leitura secreta”, Alberto Mussa desfia uma narrativa ficcional metalinguística que, por meio da fusão de dois famosos contos de Machado de Assis, “A cartomante” e “Causa secreta”, pretende analisar não só as duas histórias, seus personagens e ações, como aprofundar o entendimento que se tem sobre o termo/conceito “machadiano” — tanto em literatura quanto no imaginário das pessoas e em relação ao senso comum.
No texto, Mussa cria uma situação imaginária na qual teria sido convidado por Marco Lucchesi a elaborar a “fabulosa Enciclopédia de Machado de Assis, projeto que ele mesmo [Lucchesi] idealizara e começava a dirigir”. Tal empreitada, Mussa segue, consistia em:
“[…] condensar, em forma de verbete, todo o patrimônio intelectual legado pelo Bruxo. Para tanto era necessário listar e resumir as obras, enumerar as personagens e caracterizá-las, elaborar um rol de temas e conceitos machadianos, além de catalogar todas as referências históricas, literárias, filosóficas, artísticas e geográficas constantes de seus escritos -fosse uma obra-prima de romance ou a crônica mais despretensiosa.”
Por meio de um sorteio, cabe a Mussa a análise e detalhamento de verbetes de “A cartomante”, conto pertencente ao livro Várias histórias, publicado por Machado de Assis em 1896. Muito que bem, a partir de então, Mussa trata de contar o início de seu processo de destrinchamento do conto para dar vida aos verbetes a ele inerentes (o título do livro, os personagens, referências geográficas, bibliográficas e de toda sorte) e também a narrar as trocas e discussões entre ele e Lucchesi para a concretização do ambicioso projeto.
A primeira divergência entre os dois se dá sobre a inclusão ou não de um verbete para o suposto autor anônimo das cartas enviadas ao trio Rita, Camilo e Vilela, dando conta da possível traição de Rita e Camilo a Vilela, ela esposa deste e aquele amigo do casal. Daí em diante, o debate se amplia e os dois começam a analisar as situações e subentendidos da trama em busca de explicações, quase como verdadeiros detetives, para os não ditos de Machado — característica de estrutura narrativa considerada deveras machadiana e que permeia, se não todas, a maioria das obras deste autor.
As hipóteses aos não ditos ganham formas imaginárias rocambolescas, como cita Mussa, a história do triângulo amoroso Rita-Vilela-Camilo começava a ganhar, por meio das conjecturas, “contornos de novela policial”, depois, de “novela fantástica”… Até que — e assim chegamos ao ponto a que este trabalho se dedica verdadeiramente — Lucchesi instiga Mussa a procurar provas de que “Nelson Rodrigues germinava em Machado”, ao que Mussa aceita parcialmente, e que eu, de minha parte, abracei. Como leitora e estudiosa de Nelson Rodrigues, me senti instigada a criar também paralelos entre as obras do Bruxo do Cosme Velho e do Anjo Pornográfico e falar da antropofagia canônica na literatura ocidental.
Para iniciar seu rastreio do gérmen rodriguiano na obra machadiana, Mussa se recorda e adiciona à análise uma recente releitura de “A causa secreta”, que, nas palavras dele é:
“Uma narrativa excêntrica, no conjunto machadiano, porque explora uma espécie incomum de perversão: o protagonista tem prazer em observar a dor alheia, seja física ou moral.”
Em resumo, o homem era um sádico e, até, tortura um inocente ratinho, arrancando-lhe pata a pata e labaretando a ferida com fogo, a fim de que estancar a morte e fazer dela mais demorada.
A conexão de Mussa é feita rapidamente e ele põe olhos em um detalhe de “A cartomante” do qual ainda não houvera dado conta: ao que parece, a Vilela também mordiscava o bichinho da perversão. Ora, não fora ele quem apresentara e estimulara a amizade entre a mulher e o amigo Camilo? E, ao assassinar os amantes, não estava ele mesmo, em vez de guardar para si a descoberta da infidelidade, fazendo a todos conhecer, por meio de seu crime passional, a traição, o fato de ser corno? Mussa conclui que, na atitude de Vilela, ser traído pelo amigo e a mulher e, ainda, de que todos soubessem da galhada que ostentava no topo da cabeça, se escondia recôndita (declarada?) na alma uma perversão.
“Decide, assim, tomar a atitude mais radical, que o imortalizasse como corno. É quando compra o revólver e escreve o bilhete. Antegoza a degradação da cadeia. E, antes do primeiro tiro, imagina que dirão, no futuro:
— Aquele é o corno do Vilela. Pegou a mulher no canapé, com o melhor amigo.”
Nada mais rodriguiano do que uma perversãozinha, não é mesmo? Pois bem, aí dá-se o encontro do Bruxo e do Anjo e também com o cânone. Afinal, não estão ambos os autores recorrendo ao passado na contação de suas narrativas, urdindo novos personagens e histórias, de fato, mas ao redor de uma temática já muito explorada na literatura clássica, porém inesgotável: a sina do homem, suas perversões, sua tragédia? Vida e morte, e entre elas, tragédia, constantemente a meio-termo de Thanatos e Eros, como se o homem estivesse sempre distendido entre um e outro, ora quase em deleite pela realização, ora quase sucumbido.
No que tange à temática, a meu ver, um trecho do artigo “A aventura da mimeses no romance machadiano” de Sônia Salomão, estudado em aula, mostra, mesmo sem ser essa a intenção direta, a relação temática entre as obras de Machado e Rodrigues (notadamente conhecido pela exploração dos recalques e tragédias humanas). Salomão diz:
“Do ponto de vista temático [a obra de Machado]: vida e morte, ciúme e vaidade, loucura e melancolia, verdade e aparência, além da análise antropológica […]” (SALOMÃO, 2019, p.37)
Ora, alguma semelhança com temas da vasta obra de Nelson Rodrigues? Sim!
Ao fim e ao cabo, para usar uma expressão bem machadiana, estão ambos os autores recorrendo ao passado na contação de suas tramas, urdindo novos personagens e histórias, de fato, mas ao redor de temáticas já muito exploradas na literatura clássica, dos gregos a Shakespeare para citar dois exemplos cabais. Machado e Nelson fazem uma espécie de mimeses de temáticas do canônico ocidental, aspecto que, sobre a obra Machadiana, Sônia Salomão elabora no artigo e a qual aproprio aqui para falar da obra deste autor e estender à de Nelson Rodrigues.
A título de exemplo do paralelo entre Machado e Nelson e, ainda, entre os dois em relação ao cânone, tomemos alguns contos A vida como ela é…, nos quais identificamos semelhante construção temático-narrativa e de personagens, que são movidos, deleitados, desgraçados pela própria sina ou perversão (ou náufragos das de outrem), em resgate do cânone.
No conto “A missa de sangue”, por exemplo, o personagem Penteado descobre a traição de sua mulher com um tal Euzébio quando esta, enferma, começa a chamar pelo amante em seus delírios. Todos já davam conta da traição por meio da confissão delirosa da mulher e, por isso mesmo, sem disfarçar, quando ela morre, Penteado faz questão de colocar em cima do caixão a coroa de flores ofertada pelo tal Euzébio, como uma assinatura do delito da mulher e do agravo que sente. E fez mais: recebe como um cavaleiro a “Euzébio de Almeida, seu criado”, como o amante se apresenta no enterro, para, ao se despedirem, dar-lhe três tiros pelas costas, ampliando, assim, os reclames de sua dor de corno por meio da vingança. Alguma semelhança com Vilela? Um pouco, não é mesmo?
Já em outra história, de nome “O aleijado”, Sandoval é um tipo solteiro que só gostava de mulheres casadas. Um dia, recebe um telefonema anônimo de uma pretendente que, se declarando solteira, sabia que ele só se interessava por casadas e, por isso mesmo, que ele esperasse, pois não tardava iria ela mesma arranjar um marido para poderem ser amantes. Os casos de Sandoval geravam alguns escândalos e um amigo fiel chegou adverti-lo a ter mais cuidado, pois poderia levar um tiro. Na sequência, o chamou para jantar na casa dele com sua esposa (creio não ser necessário enfatizar a perversão em se levar um caça-esposas inveterado para conhecer a própria esposa).
Um dia, Sandoval encontrou lépida e faceira a dona da voz anônima ao telefone, agora, não mais senhorita, e, sim, senhora, casada. Começaram um enlace. Sandoval ansioso para que ela apresentasse o marido a ele (creio não ser necessário denotar a perversão II, a tara de Sandoval era também conhecer o corno). Se não bastasse corno, o marido era aleijado. Se não bastasse também era o tal amigo fiel que aconselhara generosamente Sandoval sobre seus affairs. Chamava Domício.
Domício foi publicamente humilhado para o deleite de Sônia, a esposa, e de Sandoval. A eles não bastava o caso, era preciso que todos soubessem. Domício parecia não fazer vista e a vida seguia.
Sandoval logo arranjou outro caso e precipitara abandonar Sônia. Foi então a vez da perversão de Domício entrar em cena e assim termina o conto: “Mancando, Domício o procurou: — Outra não, seu cachorro. Eu não admito, ouviste? Te dou seis tiros.”.
À ameaça, restou a Sandoval seguir jantando às noites na casa do casal, enquanto Domício cochilava à poltrona.
Em um terceiro conto da coletânea rodriguiana supracitada, mais uma traição começa por meio de um convite de um amigo a outro para jantar em casa e conhecer sua esposa (ora, ora, o que dá nesses maridos de levarem os predadores pela mão às presas?). Em “O dilema”, Hermes (o solteiro), Durval e Clarita (a esposa) se enredam em infidelidade e tragédia.
Tudo ia bem à convivência do trio quando Hermes se declara a Clarita, que não o corresponde. Ressentido, Hermes atrai para si o carinho do filho pequeno do casal. Fazendo vez de tio querido, rapta o menino e obriga Clarita a encontrá-lo para concretizar sua sanha por ela sob a ameaças de matar o garoto.
Sem opção, cabe a Clarita e ao marido acatar a ameaça e, a última fala vem de Durval à mulher: “— Vai.”.
Há muitos outros contos em que podemos traçar o paralelo machado-rodrigues-alusão ao cânone por meio de narrativas em torno da perversão e tragédia humana, mas, para finalizar, saiamos um pouco de Mussa e marchemos a visitar Bentinho em Dom Casmurro. Lembremo-nos da relação sui generis que Bentinho tinha com a mãe, um literalmente filhinho da mamãe, mimado… Socorre, Édipo!
Lembremo-nos ainda que Bentinho cismou que cismou no caso de traiu não traiu mais célebre da literatura brasileira. Se era verdade, invenção ou tara/perversão, capaz de nem Machado saber. E, mais, Bentinho esteve muito perto de matar o filho que achava que não era filho. Ou o não filho que diziam a ele pertencer? Em Nelson encontramos também Édipos, Electras, vingativos, filicidas e parricidas aos montes e em Machado também… Mas isso é assunto para outra conversa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOSI, Alfredo. Machado de Assis: O enigma do olhar. São Paulo, Ática, 1999.
SALOMÃO, S.N. A aventura da mimesis nos romances machadianos. In: Machado de Assis e o cânone ocidental: itinerários de leitura [online]. 2nd ed. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2019, pp. 37-93.