“Teoria do medalhão” é um conto, para mim, extremamente emblemático da obra de Machado de Assis. Publicado pela primeira vez em dezembro de 1881 na Gazeta de Notícias, saiu em livro no ano seguinte, como parte da publicação Papéis avulsos, que abriga ainda contos famosos como “O alienista” e “Espelho”, entre outros,
Considerado um livro de “virada” na produção contista de Machado de Assis por alguns críticos, a publicação é fruto de uma pena machadiana já consagrada, de um Machado de Assis entrando na meia-idade (à época, tinha 42 anos e, como escrevia publicamente desde a adolescência, mais de duas décadas de experiência), reconhecido pelo público e autor de cinco romances, Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876), Iaiá Garcia (1878) e Memórias póstumas de Brás Cubas (1880, na Revista Brasileira e em livro, em 1881); e com duas coletâneas publicadas Contos fluminenses (1869) e Histórias da meia-noite (1873).
É interessante notar que na obra de Machado, ao mesmo tempo em que críticos sinalizam uma “virada” na produção contista, afirma-se também uma semelhante e quase concomitante “virada” entre os romances (Memórias póstumas de Brás Cubas fora publicado em 1880 e nos apresentou elementos que não diria novos, mas mais expressivos, de traços que marcariam de vez a obra do Bruxo do Cosme Velho na estante canônica da literatura brasileira: uma voz ainda mais sardônica, a presença de um narrador com características claramente de tipo volúvel (aludindo às ideias de Abel Baptista sobre a produção machadiana), a abordagem do paradoxo entre ser e parecer, o que ele performa em sociedade, a dicotomia entre o que o indivíduo é no seu íntimo e vida privada e, claro, o não dito, o subliminar e as referências intertextuais, determinantes da obra de Machado e que permitiam ainda mais leituras e deleite daqueles que fruem seus escritos com o olhar ávido por ir além do escrito (todos estes aspectos que falarei à frente, relacionados ao conto “Teoria do Medalhão”).
Pois bem, de volta à minha escolha pelo “Teoria do medalhão”, e não de, por exemplo, “A igreja do Diabo” ou “Pai contra mãe”, outros dois dos meus contos preferidos de Machado. Desde que li a primeira vez este “Teoria…”, já adulta, foi inevitável não o associar a uma frase pouco erudita, até de calão duvidoso, que ouvi nas veredas da vida. É a seguinte: “O mundo é dos merdas”. Essa frase sempre me intrigou porque, de fato, em vários momentos da vida, observamos, não sem espanto, o êxito de pessoas que parecem ter mesmo frequentado as fileiras da escola que o pai, personagem narrador não nomeado de “Teoria do medalhão”, pessoas vazias, superficiais, que mais se importam em parecer ser do que de fato ser, que passam a vida encenando a existência, colecionando chavões, que usam convenientemente para adquirir vantagens, se colocam em altíssima conta, mas, no íntimo, o que lhes rege é uma visão limitada e estreita do mundo, muitas vezes até medíocre e mesquinha.
Para compreender por que a minha associação do “mundo dos merdas” com o conto, eis um breve resumo da narrativa: Às vésperas do aniversário de 21 anos do filho, após um jantar de comemoração e a saída do último convidado, um pai chama o filho para uma espécie de conversa ao pé do ouvido, cujo objetivo é mostrar ao rapaz a necessidade e importância, assim como ofertar as primeiras lições, de se ser um “Medalhão”.
Aqui, trecho do início do conto que demonstra cena tão afetiva e instrutiva com que um pai aconselha e ensina um filho a enfrentar a vida:
“— Fecha aquela porta; vou dizer-te cousas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. Os mesmos Pitt e Napoleão, apesar de precoces, não foram tudo aos vinte e um anos. Mas, qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum. A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados, inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as cousas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.”
— Sim, senhor.
— Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.
— Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá?
— Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. És moço, tens naturalmente o ardor, a exuberância, os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco anos possas entrar francamente no regime do aprumo e do compasso. O sábio que disse: “a gravidade é um mistério do corpo”, definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquela outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou emanação do espírito; essa é do corpo, tão somente do corpo, um sinal da natureza ou um jeito da vida (…).”
Após este trecho, o pai se põe, então, a ensinar toda a sorte de estratégias para que o rapaz possa se tornar um verdadeiro medalhão, alguém importante, considerado em sociedade, bem-quisto e bem-sucedido. Até aí, aparentemente, nada de errado, espera-se que um pai deseje e oriente um filho para que possa ser alguém em conta na vida. Porém, as lições que o pai oferece ao mancebo são, digamos, um tanto quanto duvidosas, pautadas em desenhar uma existência em uma aparência superficial e não na essência de se ser:
“— Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente; cousa que entenderás bem, imaginando, por exemplo, um ator defraudado do uso de um braço. Ele pode, por um milagre de artifício, dissimular o defeito aos olhos da plateia; mas era muito melhor dispor dos dous. O mesmo se dá com as ideias; pode-se, com violência, abafá-las, escondê-las até à morte; mas nem essa habilidade é comum, nem tão constante esforço conviria ao exercício da vida.”
Mais à frente, o narrador, no intuito de aconselhar o filho, faz-lhe, na verdade, uma ofensa (não do ponto de vista dele, é bem verdade, cuja cartilha rege mesmo a total inobservância de quaisquer tipos de autonomia de pensamento ou cultivo crítico de ideias):
“— Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício [grifo meu]. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de ideias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloquente, eis aí uma esperança. No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas ideias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As ideias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofreemos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.
Neste trecho, outro aspecto é digno de observância: à fala do “elogio” que o pai faz ao filho, segue trecho no qual ele exemplifica em que tipo de situações o filho deve se atentar para expressar sua personalidade de medalhão… Note que todas elas não correspondem a questões elementais da vida e existência humana, são comezinhas, relacionadas à aparência, superficiais, indico novamente excerto: “refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas.”.
Mais à frente, outro trecho mostra de forma literal a máquina de chavões e clichês que o medalhão deve lançar mão como forma de lograr êxito em sua empreitada e de parecer mais do que de fato ser:
“— Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas, a hidra de Lerna, por exemplo, a cabeça de Medusa, o tonel das Danaides, as asas de Ícaro, e outras, que românticos, clássicos e realistas empregam sem desar, quando precisam delas. Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação, ou de agradecimento. “Caveant, consules” é um excelente fecho de artigo político; o mesmo direi do “Si vis pacem para bellum”. Alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a numa frase nova, original e bela, mas não te aconselho esse artifício; seria desnaturar-lhe as graças vetustas. Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória individual e pública. Essas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil.”
Para o final, mais um “conselho” às avessas valiosos dado pelo pai como exemplo de que o medalhão, diferente do que se espera o senso comum, não deve se lançar à audácia de cultivar ideias próprias, usar a mente em prol da evolução de si e de contribuir para o mundo:
“— Entendamo-nos: no papel e na língua, alguma, na realidade, nada. “Filosofia da história”, por exemplo, é uma locução que deves empregar com frequência, mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.”
Já no que diz respeito à forma, notamos que em nosso manual do medalhão, Machado de Assis utiliza outros elementos dos quais é perito e que também são características de sua obra: a reprodução de gêneros literários diversos e até em desuso e suas características. Em “Teoria do Medalhão”, a narrativa é toda construída em diálogos, à moda dos textos filosóficos gregos da Antiguidade. Outro ponto em comum à essas narrativas antigas é que, ao fim e ao cabo (para usar uma expressão bem machadiana), o texto tem um caráter instrutivo, educativo e moralizador, em que o mestre (o pai) orienta o discípulo (o filho).
Percebemos também certa ironia socrática entre as lições que o pai busca dar ao filho, ofertadas com ironia sarcástica daquele que tudo sabe ao que nada sabe, estabelecendo o que “deve ser passado” de conhecimento da vida.
Me soa especialmente notável como em “Teoria do Medalhão” Machado parece oferecer um manual de ser e de conduta, por meio da voz do pai, de alguns de seus grandes personagens, como o anterior Brás Cubas (de Memórias póstumas…) e o posterior ao conto Bentinho em Dom Casmurro. Tanto um quanto o outro parecem ter desfrutado de alguns aprendizados do Pai Medalhão. Temos acesso, nas duas histórias, a elementos que nos mostram a diferença entre o que sentem e o que postulam em sociedade Brás e Bentinho (o outro para o mundo, o outro para si mesmo). Ainda, os dois também são mestres em distribuir chavões de uma erudição rasa, “pra inglês ver”. Sem falar que os dois personagens guiam suas atitudes com base em conveniências. Se demonstram liberais, mas mantêm escravos… Pretendem exprimir ideias afinadas com o progresso, mas seguem canhestros em essência. Se servem de discursos ditos modernos, mas no fim das contas não querem que nada mude, nada que os tire de sua posição na ordem mundial. Ou seja, caminhando limítrofe, sempre adequando a moral aos próprios interesses e para garantir seu status social.
Dois trechos do livro Machado de Assis: O enigma do olhar de Alfredo Bosi ilustram bem o que fora citado no parágrafo acima e é com eles que termino este breve trabalho:
“O interesse, o amor-próprio, a vaidade, a móvel armação da persona social com a sua solerte hipocrisia e a correlata quebra das normas ditas civilizadas quando se está “por cima” — tudo conflui para estadear a presença do egoísmo universal no qual se fundem instinto e cálculo, primeira e segunda natureza desejosas ambas de prazer e status, avessas ambas à dor e a qualquer abatimento social.” (BOSI, p. 155)
“[…] há em Machado mais do que simples inventário: há invenção. E esta inventividade de romancista permitiu-lhe seguir, graças à mobilidade do seu olhar, os movimentos públicos ou íntimos de personagens, que ora vivem segundo o capricho de sensações imediatas, isto é, vivem como indivíduos na acepção negativa de mônadas exteriores umas às outras; ora comportam-se como tipos, agindo de acordo com os cálculos necessários para manter ou elevar o próprio status […]” (BOSI, p. 160–161)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOSI, Alfredo. Machado de Assis: O enigma do olhar. São Paulo, Ática, 1999.
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. “Teoria do medalhão” In Papéis Avulsos. São Paulo, Penguin Companhia, 2011.
_______________________________. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo, Penguin Companhia, 2014.
_______________________________. Dom Casmurro. São Paulo, Penguin Companhia, 2014.