Julho… Meio ano já foi.
Fecho o semestre com quase 100 livros preparados e revisados em ficção e não ficção, mais ficção: prosa, poesia e dramaturgia.
Mas aqui também se lê por puro prazer e teve muita coisa boa nesse primeiro semestre de 2025.
Comecei o ano com duas autobiografias, Cher: the memoir, a primeira parte das memórias da artista (aliás, ansiosa pela tradução da segunda), e Eu sou Ozzy (lançado em 2009, mas publicado aqui em 2022).

Fiquei encantada pelos dois livros e, acredito, que nem um nem outro sejam fruto da pena direta dos autores. E, sim, constatei que, no caso da Cher (reportagem do Independent do Reino Unido), ela teria recrutado três escritores na busca pelo tom de sua voz nas memórias. Há quem diga que sem sucesso.
Eu, porém, senti em ambos os livros fortemente a verve dos artistas e me deliciei com suas vozes no papel.
A escrita do livro de Cher é divertidíssima. A mulher tem uma história de superação incrível. É, de fato, uma sobrevivente. Sem falar que quem lê fica ainda mais fã da vanguarda dessa força da natureza. O casamento com o abusivomaucaráter Sonny também rende histórias de arrepiar os cabelos, tanto que parecem até ficção de qualidade duvidosa (ou boa pacas, porque, olha, que pilantrinha ele). Apesar do tom bem-humorado e engraçado em pensamentos e tiradas de Cher (bem, é ela quem assina o livro e não os autores ghost), o livro toca, já que Cher foi criada em uma família bastante disfuncional e teve a infância recheada de abusos. Além disso, há o contraste entre a alegria e aparência de casal perfeito que ela e Sonny transpareciam ao público versus a realidade de um casamento abusivo e tóxico para Cher. Na verdade, me admira ela ter chegado até aqui (Quase 8 décadas de ousadia, vanguarda, beleza, brilho e talento, sim, eu sou fã da Cher) funcional, na verdade.
Gosto especialmente de uma passagem, vou tentar lembrar com acuidade, em que a mãe de Cher diz para ela que procure um homem rico para se casar e Cher, do alto de sua reviravolta em carreira solo, depois de deixar Sonny, dizia algo assim: “Mãe, o homem rico sou eu”. É ou não é diva? É.
Também me admira Ozzy ter chegado até aqui funcional (?) — ok, não tão assim, a ideia era causar em você essa risadinha interna mesmo. Ozzy dispensa comentários no que diz respeito à história peculiar. Foi muito interessante conhecer a trajetória dele desde a infância, passando pela juventude e a forma como chegou ao estrelado — e descobrir que dentro dele mora, sim, alguma coerência e noção da vida. Eu era assídua do seriado “The Osbournes” (MTV, 2002) e já curtia a pegada doida do Ozzy e sua família, mas viver com ele as loucuras da juventude e da vida como rock star foi bem saboroso. Até porque, assim como em Cher, algumas passagens parecem mesmo ser ficção de tão surreais que são. Uma das minhas preferidas é quando, em turnê, hospedado em um hotel, década de 1970 ou 1980, Sharon escondeu todas as roupas de Ozzy para que ele não saísse doidão depois do show para mais uma dose (ou várias). Enfim, ele deu um jeito, achou um tênis e um vestido de festa de Sharon e, assim, se lançou, com uma garrafa de Courvoisier [uma marca de conhaque], pelas ruas de Santo Antônio [Texas], fez xixi na rua e, de vestido, acabou preso.
Ah, outra passagem peculiar é quando, numa tentativa de diminuir a bebida e aderir ao hábito socialmente, Ozzy decide se aventurar no mundo das degustações e leilão de vinhos “[beber vinho] algo que um adulto civilizado faria”, como ele mesmo descreve. Bem, arrematou um lote. Mas o que era para ser 144 garrafas (“Fiquei tão bêbado que achei que eram 144 garrafas”) era, na verdade, 144 CAIXAS de vinho. “Demorou meses para que eu e os roadies terminássemos aquilo. Quando finalmente esvaziamos a última garrafa, fomos ao Hand & Cleaver para comemorar”.
Que vidas loucas, pessoas. Dos dois. Que jornadas!
Acabei, sem perceber, caindo em outra narrativa biografia. A de Oswald de Andrade por Lira Neto, Oswald de Andrade: O mau selvagem. Já conhecia o esquerdo-macho antropofágico pelos estudos literários e biografias de Pagu, mas a leitura me pegou de jeito. Bastidores literários me instigam e super indico, já que Lira é um bastião do gênero (tem até um livro sobre a feitura de livros no tema, A arte da biografia: Como escrever histórias de vida (Companhia das Letras, 2022).

Concluí também O manual da faxineira, livros de contos de Lucia Berlin, que dispensa comentários. Contista de mãos e dedos cheios. Adorei retomar e me envolver mais profundamente com a prosa contista da autora. Lucia só teve o devido reconhecimento da sua escrita postumamente.
A narrativa de Berlin é o tipo de construção a que sou muito afeita, pois alguns textos se comunicam, algumas histórias e elementos conversam entre si. Até personagens existem de forma elástica em que têm o mesmo nome, ou são continuações e acréscimos entre si. Uso muito esse recurso na minha literatura, pois encontro deleite e surpresa quando me deparo com um recurso desse em algum livro, a citação de um personagem de outro conto, do conto metalinguisticamente em si. Então, me agrada ofertar ao leitor esse mimo também.

Teve mais: Morra, amor, da argentina Ariana Harwicz, ufa, que prosa absorvente e assustadora. Uma mulher luta com seus demônios e contradições em meio à solidão, casamento, recém-maternidade. Tabus, desejos e recalques emergem numa crescente que beira a neurose de todos nós, e que nem sempre é falada, de forma crua e assustadoramente real. Sentimentos à margem vêm em meio a uma vulnerabilidade corajosa, afinal, qualquer casca ali é quebrada para expor contradições humanas sem douração de pílula. São sentimentos que nem sempre nos permitimos confrontar, nem mesmo na literatura.
Faz parte de uma trilogia (A débil mental e Precoce), então, ainda preciso ler os outros dois para ter uma impressão mais completa da narrativa da escritora. Ah, inclusive, li que vai virar filme com Jennifer Laurence no papel principal (com produção de Scorcese).
Caí na malha da moda e me aventurei no jovem Édouard Louis em Lutas e metamorfoses de uma mulher. Um livro curto, rápido, de uma sentada só. Ainda não formei uma opinião concreta. Sigo ruminando os livros. Mas no quesito escrita de si, creio que ainda fique com Marguerite Duras e Annie Ernaux. Vou ser execrada se disse que não achei Édouard essa coca-colinha toda? E isso não é desmerecer as lutas e traumas de Édouard, cuja trajetória foi marcada por questões profundas familiares e de homofobia, mas, sim à escrita. Talvez eu curta mais os romances, mas talvez não tenha estômago para História da violência.

Na mesma linha de “escrita de si”, ou (quase) ficcionalização de si mesmo) cheguei A boba da corte, da brasileira Tati Bernardi. Tenho sentimentos contraditórios sobre o livro e a narrativa da Bernardi. Também é uma leitura rápida e de uma sentada só.

Quase ia me esquecendo do maravilhoso O perigo de estar lúcida, da Rosa Montero. Nele, a jornalista e escritora narra algumas de suas pesquisas e tece impressões empíricas sobre a relação da loucura e instabilidade na saúde emocional e mental de artistas, principalmente escritores. Há, inclusive, dados (“Segundo um célebre estudo da psiquiatra Nancy Andreasen, da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, os escritores tem quatro vezes mais chances de sofrerem transtorno bipolar e até três vezes mais de padecer de depressão do que pessoas não criativas”. “[…] nós, escritores, […] colhemos os louros em matéria de maluquice”. Concordo com Montero.

Precisei revisitar algumas publicações já lidas por motivos acadêmicos e me aventurei novamente em Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, Macunaíma, de Mario de Andrade, Claro enigma, de Drummond e em Felicidade clandestina, de Clarice Lispector (e, não, Clarice não é minha autora de cabeceira. Confirmo isso a cada leitura ou releitura. Gosto mais da personalidade do que da autora em si).
Pela quarta vez, reli Memórias póstumas de Brás Cubas. Já havia lido na juventude, depois adulta e, ainda, revisando uma publicação recente para uma editora. Acabei relendo para uma prova acadêmica. E que delícia é sempre Machado.

Ah, reli, por querer mesmo, O cortiço, de Aluísio de Azevedo, e me encantei como das duas primeiras vezes em que me aventurei, no colégio e depois como adulta.
Na virada do semestre, comecei um livro que fora editado pela primeira vez no Brasil agora este ano, Dias lentos, encontros fugazes: O mundo, a carne e Los Angeles, de Eve Babitz e tradução de Cecília Madonna Young. Eve foi uma jornalista e cronista de Los Angeles. Me agrada o registro rápido e perspicaz de Babitz e adorei conhecer a autora que, aliás, parece, tinha uma com Joan Didion, há, inclusive, um livro que aborda a relação das duas, mas sem publicação nacional. O podcast 4511 MGHZ tem um episódio interessante sobre Babitz aqui.

E você? Leu o que já este ano? Qual a sua leitura do momento?
Você precisa fazer login para comentar.