Flâneuses na literatura

“Não tenho mais tempo de chegar ao patamar de uma Elena Ferrante. Li seus livros, todos pungentes. Alguns atravessados pelo dilema da maternidade em diferentes nuances (entre questões do machismo e patriarcado). “Tetratologia Napolitana”, por exemplo, me toca em muitos aspectos, mais ainda em Elena personagem adulta. Vejo a quarta temporada de “A amiga genial” (HBO/Disponível no Prime Video) e revivo a leitura. Elena (a da série) é também uma escritora. Embora em outro tempo, com questões feminis mais arcaicas do que as hoje permanecem, e numa sociedade europeia — apesar de, neste quesito, de certa forma, Elena ser margem. Tem origem numa Nápoles estigmatizada. Elena vive o dilema e as CULPAS entre ser mulher (esse não indivíduo social — sim, ainda hoje), mãe, escritora — o que a ela me une. Escrever exige introspecção e isolamento para a criação — embora também precise da vida à rua, para sorver insumos, colher com as pontas dos dedos histórias ao vento. Escrever exige solidão. Escrever é estar em contato com o que nos há de mais belo e, por vezes, mais horroroso, de paúra (pra ficar no ritmo de Ferrante rs), íntimo e até inconsciente dentro de nós. Ao mesmo tempo em que se está em certo transe escrevendo, se vive um processo consciente do cozer e coser a própria arte, de degustar a palavra certa e costurá-la a outras em frases, parágrafos, em narrativa toda. Algo mágico acontece, é meio uma droga muito, muito viciante. Envolve o deleite de transpor à folha o quase indizível e até criar mundos. Em Elena, a culpa entre ausentar-se do tempo com as filhas pela arte e de responder ao elã dos desejos pessoais e sonhos corrói. E a mim também (no meu caso, filho, e não filhas). E corroeu a tantas outras escritoras e artistas que antes de mim vieram e que hoje vivem. Leio, assisto, me comovo e choro com Ferrante e Elena. Leiam mulheres. Deixem mulheres serem o que permitem aos homens, artistas e não artistas, intelectuais e não intelectuais, serem — e ainda com a permissividade a eles despendida. Não sou misândrica, pelo contrário. Mas ai de quem apontar que aqui não digo verdades difíceis…”

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